Política(s) de Ensino de Línguas: pequenos apontamentos

Iniciou-se em 2000, o que se pretendia ser uma pequena revolução nos curricula portugueses do ensino de línguas, com a aplicação de metodologias de ensino pensadas não a partir de objectivos cognitivo-comportamentais, mas antes viés competências a atingir em fim de ciclo de estudos.

Não obstante a aplicação do Quadro Europeu Comum de Referência se ter feito, pensamos nós, com algum sucesso no Ensino Secundário, através de programas bem elaborados (não nos compete aqui desenvolver as falhas existentes), nos 2º e 3º ciclos do Ensino Básico consideramos que a aplicação governamental foi, em certa medida um desastre. Não foi pior devido à carolice dos agentes de ensino, tão injustamente ignorados e desprestigiados: os professores.

Várias razões se podem apontar. Passaremos algumas em revista:

  1. Não houve, após a reorganização curricular e aplicação das competências gerais, essenciais e transversais, a construção de programas de disciplina adaptados às novas realidades programáticas. Assim sendo, os docentes estão ainda, volvidos seis anos, a trabalhar simultaneamente com o documento das competências essenciais e os anteriores programas (não compatíveis em nossa opinião), à mercê de editores de manuais escolares que se julgam detentores da sabedoria sobre a forma como conjugar os dos dois documentos, originando práticas de ensino que roçam o excessivamente tradicional, como defesa à inovação.
  2. A nova realidade curricular conduziu à partilha de horas lectivas entre línguas estrangeiras. Este facto permite, por exemplo, que a língua estrangeira 2 (iniciada no 3º ciclo) apenas tenha um bloco de 90 minutos por semana; o que convenhamos não permite a aprendizagem do que quer que seja.
  3. Tem-se progressivamente assistido ao encerramento dos cursos em línguas e culturas estrangeiras no Ensino Superior por falta de alunos, por o estudo de línguas ter sido desprestigiado pelo Governo e pela Comunicação Social (que prestou, neste caso, um grande favor ao Governo Português).

Porém, convém não esquecer que Portugal foi o país que propôs a Estratégia de Lisboa, na qual se pretendia tornar a EU mais competitiva até 2010, viés o investimento na educação, na investigação, na sociedade de informação e na formação ao longo da vida. Pois considero que em Portugal, apesar do Plano Tecnológico, se tem procurado fazer muito pouco para aplicar aquilo que se defendeu no período de governação do Eng.º António Guterres.

De facto, a mão-de-obra portuguesa está cada vez mais desqualificada, em comparação, por exemplo com a população dos países da Europa Central e de Leste.

Não podemos falar em mobilidade de trabalhadores se estes não conhecerem a língua e cultura do país para o qual vão trabalhar; não podemos falar em investimento e criação de riqueza através da expansão das nossas empresas, se os nossos empresários teimam em não saber falar línguas estrangeiras, nem contratarem tradutores/interpretes e consultores linguísticos para as suas empresas. Esta mão-de-obra qualificada, claro está, exige salários do nível das suas qualificações.

O simples conhecimento do Inglês, tão apregoado pelo Eng.º Sócrates, também é insuficiente se pensarmos, por exemplo, na realidade francófona que cobre os cinco continentes e constitui a segunda língua europeia que é estudada quer como língua materna, como língua segunda, ou como língua estrangeira. Isto para não falarmos no Espanhol e no Alemão.

Precisamos de reverter os pontos acima indicados, atribuindo maior número de horas às línguas estrangeiras, reduzindo o efectivo através, por exemplo, do desdobramento de turmas, como se faz (ainda?) para a disciplina de Físico-Química; criando laboratórios de línguas nas escolas (se não em todas, pelo menos nas escolas secundárias); investindo na formação superior em línguas (para fins específicos, porque não?); criando finalmente os programas para o 3º ciclo do EB, antes que se passe a ter uma terceira versão curricular ancorada num paradigma teórico-metodológico diferente.

A construção de uma Europa multilingue, de uma economia multilingue (como é aliás defendido pelos 25 estados membros[1]) assim o exige!

Pergunto-me que medidas apresentarão, em 2007, o Eng.º Sócrates e a Sr.ª Ministra da Educação para a promoção das aprendizagens de línguas e diversidade linguística (cf. http://europa.eu/scadplus/leg/pt/cha/c11068.htm). Eu conheço apenas uma (ensino do Inglês no 1º ciclo). Vocês conhecem mais?

Bom trabalho.


[1] Ver a esse propósito a seguinte página da EU: http://europa.eu/scadplus/leg/pt/cha/c11084.htm

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