Novos Programas de Português Ensino Básico_Parecer_4

Por seu lado, a competência de produção escrita adquire neste programa um lugar de destaque. Preconizam-se abordagens processuais, a dedicação de tempo de aula para a abordagem da escrita nas suas diversas componentes, o trabalho em oficina, o recurso às novas tecnologias, etc. Preconizam-se igualmente diversos meios de divulgação dos escritos, que podem passar inclusivamente pelas novas tecnologias, adaptando a realidade das práticas escolares ao século em que vivemos.

 

Parece-me, no entanto, que nos 1º e 2º ciclos se deveria ter em atenção as diferentes aprendizagens defendidas para o 3º ciclo (pp. 154, 155), com as devidas adaptações às especificidades da população estudantil de cada um. Dever-se-ia também chamar a atenção para a variação dos géneros textuais segundo as comunidades discursivas do escrevente e do destinatário, sendo que um mesmo género pode revestir-se de características diferentes segundo a comunidade de pertença, isto é, dar maior reforço a entendimentos sócio-processuais da escrita. Por fim, a insistência na continuidade do estudo da narrativa para mais tarde auxiliar os processos de construção ficcional apenas se entende tendo em conta o reforço da presença da literatura referida acima. Consideramos que deveria existir um maior equilíbrio. De facto, em que sentido a predominância da narrativa auxilia a construção das chamadas « aprendizagens significativas » ou a adequação à realidade extra-escolar ou profissional? Não se refere a descrição ou a explicação, demasiadas vezes necessária na vida quotidiana e profissional, cujos complexos mecanismos cognitivos e linguísticos continuarão a carecer de aprendizagem efectiva na escola. São, no entanto, tipologias prototípicas igualmente recorrentes nas outras áreas curriculares do saber e cuja mestria pode auxiliar a configurar o sucesso escolar em todo o currículo, como é defendido nas páginas introdutórias da proposta dos novos programas.

[continua brevemente]

Novos Programas de Português Ensino Básico_Parecer_3

Quanto às sugestões metodológicas, procuraremos agrupá-las por competência e não por ciclo. Não me deterei nas competências orais por, em minha opinião, me parecerem assentar em pressupostos teóricos e metodológicos sólidos. Faltaria apenas a referência a contextos sociais diversificados e a diferentes situações comunicativas, de modo a não reproduzir as mesmas práticas. Mas, provavelmente, uma leitura atenta dos descritores poderia esclarecer estas preocupações.

design_participativo

A leitura é entendida como « um processo interactivo que se estabelece entre o leitor e o texto, em que o primeiro apreende e reconstrói o significado ou os significados do segundo ». Ora, se de facto a compreensão escrita é uma (re)construção de sentidos, esta estabelece-se segundo (i) processos cognitivos específicos (associados à compreensão e não muito diferentes dos evocados para a compreensão oral) e (ii) objectivos que norteiam o acto de ler e que auxiliam a compreensão pois através do propósito da leitura, o leitor orientará a sua acção. No entanto, estes factos não são mencionados na proposta de programas. Relativamente ao 1º ciclo, considero redutor que se pugne unicamente por métodos silábicos de aprendizagem da leitura. Em minha opinião, deveria dar-se maior liberdade à acção educativa do professor, podendo, caso prefira ou caso as necessidades de aprendizagem dos alunos assim o exijam, optar por métodos interactivos, aliás mais actuais, que potenciam o acto de ler de diversas formas, atendendo a necessidades individuais e a actividades de leitura múltiplas.

A aprendizagem e prática da leitura é recorrentemente associada aos textos de índole literária, existindo, segundo as vossas palavras, um reforço da presença da literatura nos diferentes ciclos. De facto, assim acontece, e baseando-se no Plano Nacional da Leitura, promovem-se « pactos » de leitura a incluir no Projecto Curricular de Turma que englobam apenas textos literários. Deixam-se, deste modo, de parte os textos utilitários e os textos de divulgação científica, os quais devem apenas surgir nas aulas. Parece-nos, que deste modo, não há lugar ao desenvolvimento de capacidades de leitura funcional, útil para as actividades diárias extra-escolares, nem se contribui para o desenvolvimento da literacia científica, favorecendo a aprendizagem de instrumentos de compreensão de textos desta natureza, bem como o gosto e interesse pela Ciência. A presença destes últimos, promoveria aprendizagens significativas em outras áreas do saber curricular e para o desenvolvimento de conhecimentos declarativos, culturais (em toda a extensão do termo) e não apenas ligados a um legado literário ou estético.

Não quero com isto retirar importância à leitura do texto literário para o desenvolvimento de competências de leitura ou para a promoção de um sentimento de pertença a uma comunidade de falantes com história e valores comuns. Mas a literatura sempre esteve presente nas aulas Português, e sempre em maior percentagem textual, se assim podemos dizer, relativamente a outro género textual. Basta lermos os estudos internacionais, tal como o PISA, para percebermos que as maiores falhas se registam em outros géneros e não na leitura da literatura.

[continua brevemente]

Novos Programas de Português Ensino Básico_Parecer_2

Neste documento pretende-se que a arquitectura seja clara e sintética, de modo a que o professor se possa orientar com facilidade no seu manuseamento. Contudo, julgo que nos descritores, os conteúdos não são suficientemente claros. Com efeito, parece-me que se evocam conceitos pouco definidos, que obrigam à consulta, em muitos casos, do Dicionário Terminológico. Não me parece, por conseguinte, que seja o melhor modo de actuar uma vez que se procurar fomentar a consideração do programa como instrumento de trabalho para o planeamento da acção e não o manual escolar.
Por seu lado, considero bastante pertinente o fomento das TIC nas aulas de Português, na sua integração em todas as competências, bem como no conhecimento explícito. Aguardamos com expectativa que a utilização das tecnologias e textos multimodais possa realmente ser uma prática efectiva das escolas e esperamos que estas sejam apetrechadas nesse sentido, de modo a que as práticas descritas possam realmente ter lugar. No mesmo sentido, é bastante positivo que se preconizem visitas de estudo de modo a proporcionar outro tipo de aprendizagens, permitindo o contacto com o legado cultural de Portugal. Chamo a vossa atenção para o facto do novo estatuto da carreira docente não deixar grande margem de manobra aos docentes. Ausentar-se para visitas de estudo implica (i) acumulação de faltas, impedindo uma avaliação mais positiva; (ii) a construção de planos para as aulas não dadas e (iii) a reposição de outras caso faltem a aulas dos Cursos de Formação e Educação. Não prevejo, por isso, que a prática dos professores passe a ser muito diferente da actual.

 

 

[continua brevemente]

%d blogueurs aiment cette page :