Novos Programas de Português Ensino Básico_Parecer_6

 

 

Antes de concluir, gostaria de deixar alguns apontamentos sobre uma das componentes do processo de ensino e de aprendizagem que se encontra ausente desta proposta de novos programas: a avaliação. Não compreendo como não existe qualquer referência a modos de actuação e referenciais teórico-metodológicos sobre como, quando e porquê avaliar. Com efeito, integrando-se estes novos programas em paradigmas associados ao desenvolvimento de competências, seguindo algumas orientações provindas do Quadro Europeu Comum de Referência, seria de todo pertinente que se defendesse um modelo de avaliação processual, que efectivamente auxiliasse os alunos nas suas aprendizagens. Receio que deste modo, continuem a persistir práticas de testes somativos e testes formativos que apenas têm por função o controlo de aprendizagens por parte do docente e não a consciencialização de estudantes sobre o que aprenderam e como.

Um modelo de avaliação processual acompanha o estudante desde o início do processo de aprendizagem; consciencializa-o dos critérios pelos quais vai ser avaliado, pois estes são (co-)construídos ou (co-)partilhados; fornece-lhe instrumentos de auto-verificação e auto-controlo, etc. Favorece, assim, aquilo que designaram por « experiências significativas de aprendizagem ».

Em conclusão, parece-me que estamos perante um grande desafio para a generalidade dos professores de Português. De facto, esta proposta rompe com algumas práticas instituídas. Carece, não obstante, de uma reflexão partilhada mais aprofundada que poderia colmatar algumas das lacunas enunciadas.

Referências citadas:

Nunan, D. (1998). Language teaching methodology. A textbook for teachers. Londres: Prentice Hall.

Nunan, D. (1999). Designing tasks for the communicative classroom. Cambridge: C.U.P.

Nunan, D. & Lamb, C. (1996). The self-directed teacher. Cambridge: C.U.P.

Sim-Sim, I., Duarte, I. & Ferraz, M. J. (1997). A língua materna na educação básica. Competências essenciais e níveis de desempenho. Lisboa: DEB/ME.

 

Novos Programas de Português Ensino Básico_Parecer_5

Quanto ao conhecimento explícito, considero relevantes as premissas defendidas nestes novos programas. De facto, é de todo relevante que os estudantes desenvolvam conhecimentos sobre a sua língua materna de forma consciente e efectiva. Durante muitos anos, o conceito subjacente aos actuais entendimentos de ensino da gramática foi mal interpretado, deixando-se progressivamente de se explicitar língua. O Funcionamento da Língua tinha contudo uma mais-valia, a de procurar integrar o estudo sobre a língua em situações comunicativas reais, não se valorando o estudo da gramática pela gramática. Afirmações como as seguintes, e que de certo modo sistematizam a concepção do ensino da língua, podem indiciar um regresso a um ensino mais estruturalista das categorias e estruturas da língua para depois serem aplicadas em exercícios descontextualizados, sem valor linguístico ou relevância comunicativa e social para os aprendentes:

« Pretende-se, deste modo, assegurar que o aluno, sendo possuidor de um conhecimento intuitivo e implícito da língua, sedimentado no treino e no confronto com novos padrões, vá progressivamente, mediante uma reflexão sistemática, aprofundando a consciência desse saber, moldada por categorias e por termos que lhe permitam explicitá-lo e sistematizá-lo, no plano gramatical e no plano textual. […] A sua consolidação passa igualmente pela necessidade de o trabalhar, de forma oportuna e criteriosa, como um domínio de estudo autónomo, apoiando os alunos na organização e na descrição sistemáticas do seu conhecimento da língua e dos textos. » (p. 155 – destaques meus)

O estudo sobre a língua e as diversas sugestões metodológicas presentes, às quais atribuo igualmente grande importância, tal como trabalho oficinal, devem estar intrinsecamente associadas às situações comunicativas que se pretendem desenvolver, em cada uma das competências essenciais. O conhecimento consciente sobre a língua (conhecimento explícito) e a capacidade de reflexão sobre esse mesmo conhecimento (conhecimento metalinguístico) só é útil se tiver por função o aperfeiçoamento de qualquer uma das competências essenciais, caso contrário teremos tendência a cair nas rotinas e na perpetuação de experiências pouco significativas para a aprendizagem.

[continua brevemente]

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